segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Sonetos a Orfeu

3

Um Deus pode! No entanto, dize-me, como
Um homem há de segui-lo pela estreita lira?
O sentido lhe é bifurcação. No cruzamento de dois
Caminhos do coração, nenhum templo se ergue para
Apolo.

Cantar, como tu ensinas, não é cobiça
Nem conquista de algo que por fim se alcança.
Cantar é existir. Para um deus, muito fácil.
Mas nós, quando é que existimos? E quando ele

Faz voltar para nós a terra e as estrelas?
Jovem, amar ainda não é nada, -
Embora a voz te force a boca - aprende

A esquecer que en-cantaste. Isso se apaga.
Na verdade, cantar é um outro sopro.
Um sopro pelo nada. Um vibrar em deus. Um vento.


(Rainer Maria Rilke, em Sonetos a Orfeu/Elegias de Duíno)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Bruce Springsteen



Meados de 1982, e os Estados Unidos viviam o começo da Era Reagan. Na música, o uso de sintetizadores, baterias eletrônicas e samplers aumentava cada vez mais, e neste mesmo ano Michael Jackson lançaria o clássico "Thriller", ápice do pop. Bruce Springsteen, por outro lado, resolve ir numa direção contrária.

"Nebraska", de 1982, é um disco intenso do começo ao fim. Contudo, a sua intensidade não se encontra em guitarras distorcidas: é composto basicamente de violão e harmônica (gaita), além da potente voz do Springsteen, gravados em 4 canais. Ao longo da sua audição se ouvem ecos melancólicos, suspiros e sonhos. Bruce Springsteen é um poeta, e neste disco tece histórias dilacerantes, desde a inocência da infância ("Mansion on the Hill") a assassinato adolescente. O seu suor é sentido a cada música, e chamá-lo de Working Class Hero não seria à toa.

Feito numa época de ressaca da guerra do Vietnã, que marcava ainda fortes cicatrizes na sociedade norte-americana - refletidas em muitas canções do Springsteen -, "Nebraska" é uma obra-prima folk de um roqueiro visceral. Violões, mandolins e gaitas em plena era de sintetizadores e samplers.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Vuvuzelas...e os homens-coelho

Essa copa tem sido bastante engraçada. Coisas como de uma hora pra outra cornetas passaram a ser chamadas de vuvuzelas, as memes do twitter - CALA BOCA GALVAO e CALA BOCA TADEU SCHMIDT, e sem falar dela, a fantástica, a fabulosa, caçadora da noite...jabulani.

Eu não tenho mais saco para teens. Incrível como as pessoas da minha idade conseguem ser tão irritantes, um bando de orango-tangos lobotomizados que ouvem Restart e não sabem quem é Keith Richards. Por falar nisso, tenho ouvido intensamente do Aftermath ao Exile on Main Street, a melhor fase dos Stones. Ainda acho que essa é a cura para o rock brasileiro, ouvir as obras-primas das fases Brian Jones e Mick Taylor.



Esse é o disco recomendado da vez, o debut dos homens-coelho. Incontestável master-piece, tudo que marcou a sonoridade do Echo and the Bunnymen está nesse disco, da bateria fantástica do Pete de Freitas - mais um que se foi aos 27, deixando muitas saudades - ao vocal único do Ian McCulloch. Crocodiles é um álbum cheio de vigor juvenil, e mesmo tendo sido lançado há 30 anos, continua genuinamente atual. Como o mr. Lips canta em All That Jazz: "It's appeals because it's what I feel/I know I don't understand", o que seria isso senão um hino da juventude?

sexta-feira, 4 de junho de 2010

La fugue




Viagem e fuga são conceitos que, unidos, serviram de grande temática para as artes. Quando li "On the Road", do enfant terrible beatnik Jack Kerouac, fiquei fascinado com a jornada descrita pelo narrador, Sal Paradise. Todas as caronas, os caminhões, as noitadas, o ar fresco do Oklahoma, e, afinal, o próprio espírito de liberdade, são coisas que juntas transformam-se num amálgama que representa a boa sensação de viver. É uma obra tão importante ao ponto de Bob Dylan, a voz de uma geração, considerá-lo como uma bíblia para si, e é dito que o mesmo fugiu de casa após lê-lo. E não só ele, mas muitos e muitos outros o têm como livro de cabeceira. Mais que isso, a contra-cultura da segunda metade do século XX deve a "On the Road" e à geração beat o posto de alicerce da sua existência.

Mas não só em "On the Road" podemos encontrar essa "fuga". É possível citar também, na própria literatura, a mítica Odisséia de Homero. Ou, no Cinema, um dos meus filmes favoritos: Pierrot le fou, de Jean-Luc Godard. Na película francesa, porcamente traduzida no Brasil como "O Demônio das Onze Horas", Jean-Paul Belmondo interpreta um professor desiludido que se junta à musa Anna Karina a uma viagem em rumo ao sul da França, durante a qual vivem livremente, entre beijos e furtos. Pierrot le fou é um dos filmes mais belos já feitos, e so far o meu favorito de Godard - Brigitte Bardot que me perdoe, mas O Desprezo não conseguiu ocupar esse lugar.

Creio que todos nós deveríamos viver um momento de fuga e viagem como esses, em alguma parte das nossas vidas. De uma simples tarde fugindo de compromissos para admirar o pôr-do-sol tomando sorvete a uma longa viagem pelo país, como em On the Road. Ou, como em Walden de Thoreau, fugir para viver no mato. Ou então como Bob Dylan, pegar um violão, uma gaita e gravar um disco como "Highway 61' Revisited" ou "The Freewheelin' Bob Dylan". Devemos fugir desta rotina imposta por uma sociedade demente e medíocre, com valores hipócritas por todos os lados. Devemos quebrar grilhões e paradigmas, pelos quais nos tornamos o inimigo público número um de nós mesmos, submetidos a modelos de vida que não passam de anátemas de si próprios, verdadeiros catalisadores de infelicidade. Devemos chegar num momento e encarnar algo como Clint Eastwood interpretando Dirty Harry, e mandar tudo à merda. Dizer algo como: "Foda-se tudo, quero uma heineken e ouvir um disco dos Stones". Faz bem para a saúde.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Wannabe the Jesus and Mary Chain


Acho que se me perguntassem "o que você quer ser quando crescer?", eu responderia: "The Jesus and Mary Chain".

Jim e William Reid são os irmãos mais glamourosos do rock and roll, e a sua banda é uma daquelas que deixam uma marca única, a assinatura The Jesus and Mary Chain de se fazer música. Esta madrugada pude conferir "The Power of Negative Thinking", um box de 4 CDs com b-sides, demos e covers, que ao todo são canções que sintetizam a identidade da banda. Tudo está lá, desde o mais gritante noise até o mais suave e sussurado vocal, ao som de calmas linhas de violão. Tem até covers - geniais, por sinal - para canções de Syd Barrett e Leonard Cohen. Jesus puro, do mais alto nível, em mais de 80 faixas delirantes. Dica master para fãs de bom rock.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Lost




Tenho que manifestar a minha profunda decepção com o tão famigerado final de Lost. Após 6 temporadas, as quais acompanhei uma a uma enquanto foram lançadas, finalmente acabou. Pior: acabou de forma irritantemente piegas. No final, todas as complexas teorias e mistérios acabaram tornando-se nada, e a grande "explicação" para tudo foi mais fraca que disco do Genesis na década de 80. Numa época em que nos E.U.A. séries têm tido roteiros melhores que filmes de grandes estúdios - sim, que falta nos fazem Billy Wilder, Frank Capra, Hitchcock e tantos outros -, um grand finale para o seriado que mais se destacou nos últimos anos era o esperado. Agora nos resta acompanhar Fringe, a nova (agora não tão nova assim) empreitada de J.J. Abrams, criador de Lost. Puta falta de sacanagem.

terça-feira, 18 de maio de 2010

30 anos de morte de Ian Curtis



Acho que é dispensável eu falar sobre uma banda que tanto já falei. Há exatos 30 anos Ian Curtis, detentor da poderosa voz à frente do Joy Division saiu da vida para entrar na história do rock, com suas canções pertubadoras sendo deixadas como legado, da aspereza de "Warsaw" à sublime melodia de "Atmosphere". Sua obra ficará para sempre, ao lado de outros gigantes da nossa tão amada música rock and roll.

Mais um adendo: Ontem o eterno king Ronnie James Dio nos deixou. Long live the king.

Enquanto isso, no Brasil...




E eu que achava que o "rock" brasileiro "teen" exportado de SP não podia piorar mais. Ledo engano.

Mas o Restart tem méritos até ironia mode = on, afinal, se não fossem eles, quem que as "pessoas" debilóides do Bompreço do Salvador Shopping aos dias de sábado idolatrariam? E, afinal, a criação da máxima "acho uma puta falta de sacanagem" é impagável, embora até agora eu indague sobre o que significa uma "puta falta de sacanagem".

E viva o Joy Division.