domingo, 19 de dezembro de 2010
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Hey hey, my my rock and roll can never die

Muito já se escreveu sobre os Beatles, e sobre o John Lennon. Hoje, 8 de dezembro, é o dia em que 30 anos são feitos sem o beatle mais velho, o dia em que a música (não) morreu, assassinada. Em tempos nos quais o rock and roll tem sido tristemente banalizado e meramente vendido como uma tentativa de cópia muito mal-feita, é pertinente relembrar daquele jovem rebelde de Liverpool que ajudou a mudar o rumo da música, e influenciou várias gerações de jovens, alguns que hoje já estão na casa dos 60 anos de idade. É preciso haver mais músicos de rock como John Lennon: cínicos, inteligentes, profundos e verdadeiros. Como diz a música do Beto Guedes: minha estrela amiga, por que você não fez a bala parar?
Hoje não deve ser um dia em que se lamente por 30 anos sem John Lennon; e sim um dia em que se comemore que o rock não foi findado, que a boa música persiste, e que ideais sinceros prevalecem, enquanto as coisas vazias desmancham no ar e são deixadas para trás, mesmo depois de 30 anos. É um dia para lembrarmos que o rock remanesce, com sua incrível capacidade de resiliência, mesmo que agonize em tempos tão vazios.
The king is gone, but he's not forgotten
Hey hey, my my
Rock and roll can never die
(Neil Young)
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Matar ou Morrer
Certa vez, ao ser entrevistado pelo cineasta Peter Bogdanovich, Orson Welles - o mestre realizador de Cidadão Kane e Touch of Evil - disse que o cinema havia morrido em 1962, e o seu último filme foi O Homem Que Matou o Facínora, de John Ford. Ao espanto do entrevistador, Welles esclareceu: o cinema teve o seu apogeu dentre 1912 a 1962, e a partir daí o seu perigeu. Não é muito difícil de enxergar isso: o cinema, em vias gerais, perdeu o seu status político e se empobreceu tematicamente. A quantidade de enlatados pasteurizados aumenta cada vez mais, para uma massa que foi habituada a enxergar o cinema como uma simples consequência do ato de ir ao shopping, local ao qual o cinema acabou sendo confinado. O espetáculo cinematográfico se perdeu, e foi reduzido a um entretenimento banal.
Um dos grandes filmes da época clássica do cinema é High Noon, traduzido no Brasil como Matar ou Morrer. Nas palavras de Andre Bazin o western é o cinema americano por excelência, e este é um dos ápices do gênero, marcado por re-inventar a si próprio. A película de Zinnemman trás um Gary Cooper no papel de um xerife que, no dia do seu casamento, recebe a notícia que um bando de bandidos, o qual o seu líder acabou de sair da cadeia, está prestes a invadir a cidade e dar cabo do estrela-de-lata. O homem da lei então tenta recrutar voluntários para defender a cidade, mas ninguém se dispõe. Paráfrase do macartismo, High Noon retrata a coragem individual diante da covardia coletiva. Ao ser indagado sobre a película, o mítico e conservador John Wayne - o maior dos atores de western - disse que foi o filme mais anti-americano que ele já havia assistido.
Ao fugir dos arquétipos do western consolidados desde No Tempo das Diligências, de John Ford, High Noon - um divisor de águas no gênero - substitui o lugar de dominação da ação física pela dimensão psicológica. A conduta moral de cada personagem é descrita, ao passo em que a angústia do xerife perante o passar do tempo vai aumentando. Com esta película, o western humaniza-se, torna-se poético e uma ótima forma de análise de comportamento e da condição humana. Outro fator-chave de High Noon é a rigorosa unidade de tempo, na qual o tempo narrativo é igual ao tempo físico: o tempo em que Gary Cooper espera os outlaws é o mesmo tempo em que o filme transcorre, 88 minutos.
Matar ou Morrer é um dos muitos exemplos que demonstram o quão ruim é o cinema ao qual nos é empurrado pela garganta atualmente. Tanto os pasteurizados de massa, quanto os sonolentos e pretensiosos "filmes cult/de arte" sem timing, que nada se parecem com os grandes mestres autorais, seja Bergman ou Sam Peckinpah.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Sonetos a Orfeu
3
Um Deus pode! No entanto, dize-me, como
Um homem há de segui-lo pela estreita lira?
O sentido lhe é bifurcação. No cruzamento de dois
Caminhos do coração, nenhum templo se ergue para
Apolo.
Cantar, como tu ensinas, não é cobiça
Nem conquista de algo que por fim se alcança.
Cantar é existir. Para um deus, muito fácil.
Mas nós, quando é que existimos? E quando ele
Faz voltar para nós a terra e as estrelas?
Jovem, amar ainda não é nada, -
Embora a voz te force a boca - aprende
A esquecer que en-cantaste. Isso se apaga.
Na verdade, cantar é um outro sopro.
Um sopro pelo nada. Um vibrar em deus. Um vento.
(Rainer Maria Rilke, em Sonetos a Orfeu/Elegias de Duíno)
Um Deus pode! No entanto, dize-me, como
Um homem há de segui-lo pela estreita lira?
O sentido lhe é bifurcação. No cruzamento de dois
Caminhos do coração, nenhum templo se ergue para
Apolo.
Cantar, como tu ensinas, não é cobiça
Nem conquista de algo que por fim se alcança.
Cantar é existir. Para um deus, muito fácil.
Mas nós, quando é que existimos? E quando ele
Faz voltar para nós a terra e as estrelas?
Jovem, amar ainda não é nada, -
Embora a voz te force a boca - aprende
A esquecer que en-cantaste. Isso se apaga.
Na verdade, cantar é um outro sopro.
Um sopro pelo nada. Um vibrar em deus. Um vento.
(Rainer Maria Rilke, em Sonetos a Orfeu/Elegias de Duíno)
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Bruce Springsteen

Meados de 1982, e os Estados Unidos viviam o começo da Era Reagan. Na música, o uso de sintetizadores, baterias eletrônicas e samplers aumentava cada vez mais, e neste mesmo ano Michael Jackson lançaria o clássico "Thriller", ápice do pop. Bruce Springsteen, por outro lado, resolve ir numa direção contrária.
"Nebraska", de 1982, é um disco intenso do começo ao fim. Contudo, a sua intensidade não se encontra em guitarras distorcidas: é composto basicamente de violão e harmônica (gaita), além da potente voz do Springsteen, gravados em 4 canais. Ao longo da sua audição se ouvem ecos melancólicos, suspiros e sonhos. Bruce Springsteen é um poeta, e neste disco tece histórias dilacerantes, desde a inocência da infância ("Mansion on the Hill") a assassinato adolescente. O seu suor é sentido a cada música, e chamá-lo de Working Class Hero não seria à toa.
Feito numa época de ressaca da guerra do Vietnã, que marcava ainda fortes cicatrizes na sociedade norte-americana - refletidas em muitas canções do Springsteen -, "Nebraska" é uma obra-prima folk de um roqueiro visceral. Violões, mandolins e gaitas em plena era de sintetizadores e samplers.
terça-feira, 29 de junho de 2010
Vuvuzelas...e os homens-coelho
Essa copa tem sido bastante engraçada. Coisas como de uma hora pra outra cornetas passaram a ser chamadas de vuvuzelas, as memes do twitter - CALA BOCA GALVAO e CALA BOCA TADEU SCHMIDT, e sem falar dela, a fantástica, a fabulosa, caçadora da noite...jabulani.
Eu não tenho mais saco para teens. Incrível como as pessoas da minha idade conseguem ser tão irritantes, um bando de orango-tangos lobotomizados que ouvem Restart e não sabem quem é Keith Richards. Por falar nisso, tenho ouvido intensamente do Aftermath ao Exile on Main Street, a melhor fase dos Stones. Ainda acho que essa é a cura para o rock brasileiro, ouvir as obras-primas das fases Brian Jones e Mick Taylor.

Esse é o disco recomendado da vez, o debut dos homens-coelho. Incontestável master-piece, tudo que marcou a sonoridade do Echo and the Bunnymen está nesse disco, da bateria fantástica do Pete de Freitas - mais um que se foi aos 27, deixando muitas saudades - ao vocal único do Ian McCulloch. Crocodiles é um álbum cheio de vigor juvenil, e mesmo tendo sido lançado há 30 anos, continua genuinamente atual. Como o mr. Lips canta em All That Jazz: "It's appeals because it's what I feel/I know I don't understand", o que seria isso senão um hino da juventude?
Eu não tenho mais saco para teens. Incrível como as pessoas da minha idade conseguem ser tão irritantes, um bando de orango-tangos lobotomizados que ouvem Restart e não sabem quem é Keith Richards. Por falar nisso, tenho ouvido intensamente do Aftermath ao Exile on Main Street, a melhor fase dos Stones. Ainda acho que essa é a cura para o rock brasileiro, ouvir as obras-primas das fases Brian Jones e Mick Taylor.
Esse é o disco recomendado da vez, o debut dos homens-coelho. Incontestável master-piece, tudo que marcou a sonoridade do Echo and the Bunnymen está nesse disco, da bateria fantástica do Pete de Freitas - mais um que se foi aos 27, deixando muitas saudades - ao vocal único do Ian McCulloch. Crocodiles é um álbum cheio de vigor juvenil, e mesmo tendo sido lançado há 30 anos, continua genuinamente atual. Como o mr. Lips canta em All That Jazz: "It's appeals because it's what I feel/I know I don't understand", o que seria isso senão um hino da juventude?
sexta-feira, 4 de junho de 2010
La fugue

Viagem e fuga são conceitos que, unidos, serviram de grande temática para as artes. Quando li "On the Road", do enfant terrible beatnik Jack Kerouac, fiquei fascinado com a jornada descrita pelo narrador, Sal Paradise. Todas as caronas, os caminhões, as noitadas, o ar fresco do Oklahoma, e, afinal, o próprio espírito de liberdade, são coisas que juntas transformam-se num amálgama que representa a boa sensação de viver. É uma obra tão importante ao ponto de Bob Dylan, a voz de uma geração, considerá-lo como uma bíblia para si, e é dito que o mesmo fugiu de casa após lê-lo. E não só ele, mas muitos e muitos outros o têm como livro de cabeceira. Mais que isso, a contra-cultura da segunda metade do século XX deve a "On the Road" e à geração beat o posto de alicerce da sua existência.
Mas não só em "On the Road" podemos encontrar essa "fuga". É possível citar também, na própria literatura, a mítica Odisséia de Homero. Ou, no Cinema, um dos meus filmes favoritos: Pierrot le fou, de Jean-Luc Godard. Na película francesa, porcamente traduzida no Brasil como "O Demônio das Onze Horas", Jean-Paul Belmondo interpreta um professor desiludido que se junta à musa Anna Karina a uma viagem em rumo ao sul da França, durante a qual vivem livremente, entre beijos e furtos. Pierrot le fou é um dos filmes mais belos já feitos, e so far o meu favorito de Godard - Brigitte Bardot que me perdoe, mas O Desprezo não conseguiu ocupar esse lugar.
Creio que todos nós deveríamos viver um momento de fuga e viagem como esses, em alguma parte das nossas vidas. De uma simples tarde fugindo de compromissos para admirar o pôr-do-sol tomando sorvete a uma longa viagem pelo país, como em On the Road. Ou, como em Walden de Thoreau, fugir para viver no mato. Ou então como Bob Dylan, pegar um violão, uma gaita e gravar um disco como "Highway 61' Revisited" ou "The Freewheelin' Bob Dylan". Devemos fugir desta rotina imposta por uma sociedade demente e medíocre, com valores hipócritas por todos os lados. Devemos quebrar grilhões e paradigmas, pelos quais nos tornamos o inimigo público número um de nós mesmos, submetidos a modelos de vida que não passam de anátemas de si próprios, verdadeiros catalisadores de infelicidade. Devemos chegar num momento e encarnar algo como Clint Eastwood interpretando Dirty Harry, e mandar tudo à merda. Dizer algo como: "Foda-se tudo, quero uma heineken e ouvir um disco dos Stones". Faz bem para a saúde.
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